Produtividade ou alienação digital de identidade? As duas coisas
Como os LLMs (Large Language Models), em português, Modelo de Linguagem de Grande Escala, não roubaram nossa identidade digital, nós a entregamos, de bom grado, em nome da produtividade. Essa alienação digital de identidade não chegou como invasão, chegou como conveniência.
Na última semana um colega de trabalho enviou uma mensagem no WhatsApp fluída, sem erros gramaticais e uma estrutura invejável. Em outros momentos eu teria elogiado, porém, percebi que foi um texto criado pelo ChatGPT.
A ausência de erros gramaticais foi percebida imediatamente. Aquele colega não produzia textos assim. Era um texto sem voz própria. Os textos anteriores eram carregados de marcas que traziam a sua presença, equívocos de concordância, construções pouco fluídas, mas que de alguma forma comunicavam.
Com o avanço da tecnologia e a promessa de progresso ela traz em seu bojo uma perda que não percebemos. O telefone substituiu a carta e com ele perdemos a caligrafia, a letra torta e inclinada que dizia muito sobre quem escrevia.
Quando o e-mail substituiu o telefone perdemos o silêncio do outro lado da linha antes de uma notícia importante. Cada avanço tecnológico nos trouxe uma perda quase imperceptível, que só percebemos quando não temos tempo de recuperá-la.
Quando as redes sociais substituíram o diário, perdemos o rascunho de ideia que ninguém veria, em que a honestidade prevalecia, pois não havia audiência para condenar ou aplaudir. O diário não precisava ser bom. Precisava ser verdadeiro. Era o único lugar onde o pensamento existia antes de virar performance.
Os LLMs ameaçam apagar o conteúdo e não a forma. Não é como você escreve e sim o que tem a dizer. A caligrafia era uma marca física, uma espécie de digital única. A voz entrelaçada na escrita, um registro de pensamento.
E pensamento não se recupera num curso de fim de semana.
É aqui que a alienação digital de identidade se instala. Não como ruptura visível, mas como substituição silenciosa. O hábito de delegar a escrita vira o hábito de delegar o pensamento. E o pensamento delegado com frequência suficiente deixa de parecer delegado, começa a parecer seu. O silêncio onde sua voz estaria não parece ausência. Parece eficiência.
Imediatamente lembrei de Roy Batty, o replicante de Blade Runner, que em meio à chuva torrencial misturada às suas lágrimas falava sobre as memórias que seriam perdidas. Os LLMs apagarão as memórias que tenho das escritas desse colega, cheias de imperfeições, mas que comunicavam e eram humanas.
A alienação identitária que os LLMs provocam chega sem aviso, em nome da produtividade e da perfeição. Passa a ser parte de nós. E quando você percebe, já não sabe se é você ou uma máquina que está pensando.
A velocidade tecnológica invoca uma nostalgia quando olhamos uma carta escrita a mão. Escrita com aquela letra torta, com frase que não fecha e vírgula no lugar errado. Sentiremos falta. Falta de alguém que estava marcado na escrita de modo que não precisava ser perfeito para ser reconhecido.
Prefiro as palavras imperfeitas e as construções em ruínas do que a perfeição de um texto frio e claramente de um LLM.
Não se trata de uma defesa ferrenha da ignorância gramatical, nem um manifesto contra os avanços tecnológicos. É um chamado sobre o que significa deixar um LLM pensar por você, é a diferença entre usar óculos para enxergar melhor e deixar que outra pessoa veja o mundo por você.
Toda vez que você abre o ChatGPT antes de abrir o próprio pensamento, a distância entre você e sua voz aumenta um milímetro. Imperceptível. Aceitável. Até que um dia você tenta escrever sozinho e percebe que não sabe mais por onde começar.
Roy Batty queria viver. Por enquanto parecemos humanos, mas por quanto tempo mais vamos parecer?
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