Estas são as missões espaciais 2026 que estão de fato em andamento, não as anunciadas, as que já saíram do papel. Enquanto você lê isso, uma estação espacial que já vaza há anos voltou a vazar. Um foguete que prometia colonizar Marte se desintegrou no caminho de volta. E quatro astronautas que orbitaram a Lua há pouco mais de dois meses já são tratados como rotina. 2026 não é o ano em que a ficção científica previu, é o ano em que ela parou de ser necessária. A realidade está cobrindo o turno.
Aqui está o raio-X completo do que está em órbita, em trânsito e em pedaços, agora.
Artemis II voltou, e a Lua virou rotina mais rápido do que devia
No dia 1º de abril, a NASA lançou a Artemis II do Kennedy Space Center, com Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e o canadense Jeremy Hansen a bordo da cápsula Orion. Dez dias depois, em 10 de abril, a tripulação amerissou no Pacífico, ao largo de San Diego, num pouso que a própria NASA chamou de impecável. Foi a primeira vez em mais de cinquenta anos que seres humanos voaram além da órbita baixa da Terra.
No meio do caminho, a tripulação bateu o recorde de distância da Apollo 13 e batizou uma cratera lunar de “Carroll”, em homenagem à esposa falecida do comandante Wiseman, um dos raros momentos em que a frieza protocolar da NASA cedeu espaço para algo humano demais para um comunicado de imprensa.
A missão não pousou na Lua. Não era para pousar. Era um teste: validar Orion, o sistema de suporte à vida, a navegação em espaço profundo. Mas a narrativa pública já tratou o feito como o retorno triunfal à era Apollo, o que é, no mínimo, prematuro. Artemis III e IV, as missões que de fato colocariam botas na superfície lunar, só estão previstas para 2028. Entre o voo simbólico e o pouso real, ainda existe um abismo de engenharia, orçamento e paciência política que a cobertura de abril preferiu não mencionar.
Starship: o foguete que ainda não decidiu se vai para Marte ou se desfaz no caminho
Depois de sete meses sem voar, um silêncio quebrado por explosões em solo e adiamentos sucessivos, a SpaceX finalmente lançou a Starship V3 em 22 de maio, no que foi batizado de voo de teste número 12. A primeira tentativa, no dia anterior, foi abortada quatro vezes a quarenta segundos do lançamento.
O resultado foi descrito pela própria empresa como sucesso parcial, o que é uma forma elegante de dizer que metade funcionou. A nave atingiu um impulso de mais de oito mil toneladas, o dobro da capacidade do SLS que levou a Artemis II à Lua, e completou boa parte do perfil suborbital previsto, com 22 simuladores de Starlink a bordo. Um dos motores centrais desligou antes da hora; os motores de nível do mar compensaram. Até aí, controlável.
O propulsor Super Heavy não teve a mesma sorte. Durante a queima de retorno, apenas cinco dos motores do anel intermediário reacenderam. Sem frear o suficiente, o foguete se desintegrou a 1.450 km/h e caiu no oceano a trezentos quilômetros do ponto previsto.
O contexto torna o episódio mais irônico ainda: a SpaceX registrou em maio o pedido de abertura de capital, com valuation projetado entre 175 e 210 bilhões de dólares, alguns analistas falam em até 2 trilhões na estreia. Musk segue afirmando que a Starship partirá para Marte ainda em 2026, carregando o robô Optimus. Uma demonstração de transferência de propelente em órbita, essencial para a arquitetura lunar do programa Artemis, está marcada para junho. Entre o roadmap vendido aos investidores e os destroços no Golfo do México, a distância é a mesma de sempre: a que existe entre o pitch e a física, e esse é só o retrato de uma das missões espaciais 2026 em andamento.
A Estação Espacial Internacional está vazando, de novo
Entre as missões espaciais 2026, a ISS é a única que carrega peso geopolítico além do técnico. Em 5 de junho, cinco astronautas da estação precisaram se abrigar preventivamente dentro da cápsula Dragon da SpaceX, atracada ao laboratório orbital, enquanto cosmonautas russos tentavam reparar um novo vazamento no segmento russo. Não houve evacuação. A NASA chamou de excesso de cautela. Mas o vazamento em questão tem histórico: é a mesma região que já apresentou rachaduras e perda de ar em ocasiões anteriores.
A ISS é hoje uma das últimas frentes onde a cooperação entre Estados Unidos e Rússia ainda respira, mesmo depois da invasão da Ucrânia em 2022. Sua desativação está programada para 2030. O quadro que sobra é o de uma estrutura do tamanho de um campo de futebol, com mais de duas décadas de ocupação contínua, sendo mantida por remendos num momento em que as duas potências que a sustentam têm cada vez menos razões diplomáticas para continuar fazendo isso juntas.
Hera se aproxima do cemitério que ela mesma ajudou a criar
Entre as missões espaciais 2026 que pouca gente está acompanhando, a Hera é talvez a mais paciente. A sonda da ESA segue rumo ao sistema binário de asteroides Didymos-Dimorphos, o mesmo Dimorphos que a missão DART da NASA atingiu de propósito em 2022, na primeira tentativa da humanidade de alterar mensuravelmente a órbita de um corpo celeste. Depois de um sobrevoo em Marte em março de 2025 e uma manobra de correção em fevereiro deste ano, a Hera está programada para o encontro com o sistema entre outubro e novembro de 2026.
A missão não vai destruir nada. Vai investigar a cena do crime. O objetivo é transformar o impacto do DART, hoje um experimento isolado, num método replicável de defesa planetária, a diferença entre “conseguimos uma vez” e “sabemos fazer isso de novo se precisarmos”.
Marte: os robôs estão lendo o passado do planeta como quem lê um laudo de autópsia
Das missões espaciais 2026 que não fazem manchete, os rovers em Marte são as mais silenciosas, e as mais ocupadas. Em abril, a NASA publicou na Nature Communications a descoberta do Curiosity: mais de vinte moléculas orgânicas inéditas em rochas argilosas da Cratera Gale, incluindo um composto nitrogenado parecido com precursores de DNA e benzotiofeno, substância também encontrada em meteoritos. A agência foi cuidadosa ao classificar o achado como bioassinatura potencial, não confirmada, pode ser biológico, pode ser geológico, pode ser só mais uma rocha com uma história complicada. A confirmação definitiva depende de amostras que ainda nem têm data para voltar à Terra.
Do outro lado do planeta, a 3.775 quilômetros de distância, o Perseverance comemorou cinco anos em Marte em fevereiro e ganhou um upgrade que permite calcular sua própria localização sem esperar confirmação da Terra, útil quando a distância média entre os dois planetas é de 225 milhões de quilômetros e cada mensagem demora minutos para chegar. Os dois rovers liberaram panoramas de 360 graus capturados entre dezembro e janeiro: o Curiosity subindo o Monte Sharp em direção a camadas mais recentes, o Perseverance descendo para as rochas mais antigas do Sistema Solar, perto da borda da Cratera Jezero. Duas máquinas, viajando no tempo geológico em direções opostas, procurando os ingredientes de uma vida que, se existiu, já não está mais lá.
Missões espaciais 2026: o que isso tudo significa
Nenhuma das missões espaciais 2026 é sobre o presente. Artemis II testa um futuro que só chega em 2028. A Starship vende uma colônia em Marte enquanto ainda não consegue trazer seu próprio propulsor de volta inteiro. A ISS sustenta uma cooperação que o resto do mundo já abandonou. A Hera investiga um experimento cujo verdadeiro teste só vai acontecer na próxima vez que um asteroide de verdade vier na nossa direção. E os rovers em Marte continuam catalogando os restos de uma habitabilidade que terminou há bilhões de anos, um espelho que ainda não decidimos se queremos olhar de frente.
A exploração espacial de 2026 não é sobre conquistar o futuro. É sobre administrar o atraso entre o que prometemos e o que conseguimos entregar. Isso, pelo menos, é uma história que a ficção científica sempre soube contar bem.
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