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O Clube de Leitura da Aleph e a resistência silenciosa da ficção científica

Clube de Leitura da Aleph e a resistência silenciosa da ficção científica

Em tempos em que o entretenimento se fragmenta em segundos e o consumo de histórias se reduz a trailers, thumbnails e resumos de três linhas, existe um grupo de pessoas que se reúne mensalmente para fazer algo radicalmente diferente: ler. Ler com calma, com atenção, com o tipo de presença que um livro exige e que a cultura do óbvio raramente oferece.

Esse grupo é o Clube de Leitura da Aleph, e ao longo do tempo ele tem construído, livro a livro, um dos mais ricos percursos pela ficção científica que qualquer leitor brasileiro pode experimentar.

A Aleph e sua missão editorial

A Editora Aleph não é uma editora qualquer. Em um mercado editorial frequentemente dominado por tendências passageiras e apostas seguras, a Aleph se especializou em trazer ao público brasileiro o que há de mais relevante, desafiador e duradouro na literatura especulativa mundial. Science fiction, fantasy, horror literário, gêneros que por muito tempo foram tratados como entretenimento de segunda categoria, recebem da Aleph o tratamento editorial que merecem: traduções cuidadosas, edições caprichadas e uma curadoria que respeita tanto o legado dos clássicos quanto a vitalidade das vozes contemporâneas.

O clube de leitura é, nesse sentido, uma extensão natural dessa missão. Não se trata apenas de vender livros. Trata-se de construir uma comunidade de leitores que leva a sério a ficção científica como literatura, como forma de pensar o presente através do futuro, de examinar a humanidade através do espelho distorcido da especulação.

Uma curadoria consistente pela ficção científica

Quando se observa a lista de livros escolhidos pelo Clube da Aleph ao longo do tempo, o que salta aos olhos não é apenas a qualidade individual de cada título, é a inteligência da curadoria como um todo.

Entre os títulos que passaram pelo clube estão Um Cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr., uma das meditações mais profundas já escritas sobre civilização, memória e a repetição trágica da história humana; Duna, de Frank Herbert, talvez o maior épico da ficção científica, um romance que é ao mesmo tempo ecologia, política, religião e aventura; Nova, de Samuel R. Delany, obra que expandiu os limites da linguagem dentro do gênero; Neuromancer, de William Gibson, que inventou o ciberpunk e antecipou a internet como ninguém; Galápagos, de Kurt Vonnegut, sátira feroz da pretensão humana; e Da Terra à Lua, de Júlio Verne, o texto fundador de todo sonho espacial moderno.

A lista continua: Coração de Aço, de Brandon Sanderson; O Longo Amanhã, de Leigh Brackett; Hotel Termush, do dinamarquês Sven Holm; Frankenstein, de Mary Shelley, o próprio DNA da ficção científica; Blade Runner, de Philip K. Dick. Em 2026, o ritmo não diminuiu: O Senhor da Luz, de Roger Zelazny; O Planeta dos Macacos, de Pierre Boulle; O Poder da Espada, de Joe Abercrombie; Cavernas de Aço, de Asimov; Uma Lembrança Chamada Império, de Arkady Martine; Flores para Algernon, de Daniel Keyes; a sul-coreana Kim Choyeop com Se Não Podemos Viajar à Velocidade da Luz; o inclassificável Solaris, de Stanisław Lem. E mais recentemente, em outubro de 2026, os Contos de Ficção Científica de Edgar Allan Poe, lembrando que o gênero tem raízes mais antigas do que muitos imaginam.

São mais de 20 obras. Uma biblioteca inteira de ideias sobre o futuro, a tecnologia, a consciência, o poder, o tempo e a condição humana.

O antídoto para uma cultura de armas e ódio

Vivemos em uma cultura que se alimenta de conflito simples. Bem contra o mal. Nós contra eles. Heróis armados contra inimigos sem rosto. Essa narrativa domina o entretenimento de massa, as redes sociais, o discurso político. Ela é fácil de consumir porque não exige nada de quem a recebe, apenas a satisfação de escolher um lado e torcer pela destruição do outro.

A literatura, especialmente a ficção científica, funciona de forma radicalmente diferente. Ela não oferece lados. Ela oferece perguntas. Em Frankenstein, o monstro não é o vilão, é o espelho. Em Flores para Algernon, o progresso não é a redenção, é a tragédia. Em O Homem do Castelo Alto, o próprio conceito de realidade, de história, de vitória e derrota é colocado em xeque. Não há como sair desses livros com certezas, apenas com uma consciência um pouco mais inquieta e mais viva.

E então surge a pergunta que o Clube da Aleph, sem precisar formulá-la, coloca em prática todo mês: por que a literatura não alcança mais pessoas? Por que é mais fácil engajar milhões em torno de um universo cinematográfico de heróis e vilões do que reunir algumas dezenas para discutir um livro que muda a forma de ver o mundo? O que essa diferença diz sobre o que estamos nos tornando, e sobre o que ainda podemos ser?

A ficção científica, em sua melhor forma, é o oposto disso tudo. Ela nos coloca diante do desconhecido e nos exige pensar. Solaris nos confronta com a possibilidade de um contato alienígena tão diferente que sequer podemos compreendê-lo. Flores para Algernon nos obriga a pensar o que significa ser inteligente, e o que perdemos quando deixamos de ser vulneráveis. Neuromancer nos mostrou, antes da internet existir como a conhecemos, que as redes de informação seriam ao mesmo tempo libertadoras e aprisionadoras.

Não há resposta fácil. Mas há o clube.

O Clube da Aleph entende isso. E, ao escolher esse tipo de leitura mês após mês, faz uma escolha política, no melhor sentido da palavra. Escolhe a profundidade em vez da superfície. Escolhe o livro em vez do resumo. Escolhe o encontro real em vez da reação digital.

O próximo encontro: O Homem do Castelo Alto

E o próximo livro não poderia ser mais emblemático.

O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick, é uma das obras mais desconcertantes e geniais da ficção científica do século XX. Publicado em 1962 e vencedor do Prêmio Hugo, o romance imagina um mundo alternativo em que o Eixo venceu a Segunda Guerra Mundial, com os Estados Unidos divididos entre a ocupação japonesa na costa oeste e o domínio nazista no leste. Dentro desse mundo, existe um livro proibido que descreve um mundo alternativo em que os Aliados venceram. Uma ficção dentro de uma ficção. Um espelho dentro de um espelho.

Dick nos questiona: como sabemos que a realidade em que vivemos é a verdadeira? Como a história que contamos sobre o passado molda o presente que habitamos? São perguntas que, em 2026, parecem mais urgentes do que nunca.

O encontro do Clube de Leitura da Aleph para discutir O Homem do Castelo Alto acontece no dia 10 de novembro de 2026, às 19h, na Rua Bento Freitas, 306, 3º andar, em São Paulo.

Se você ainda não conhece o clube ou está pensando em participar, esse é um ótimo ponto de entrada. O livro é relativamente curto, profundamente instigante, e absolutamente essencial para qualquer leitor de ficção científica.

Por que isso importa para o Setor42

Aqui no Setor42, acreditamos que a ficção científica é uma das formas mais sérias de literatura que existem. Não porque seja acadêmica — ela pode ser pulp, pode ser divertida, pode ser absurda — mas porque, quando feita com inteligência, ela pensa o que outras literaturas evitam pensar.

O Clube da Aleph está fazendo exatamente isso, mês após mês, livro após livro. Está construindo leitores que não se contentam com o óbvio. Está criando comunidade em torno de ideias que importam.

Se você é de São Paulo e ainda não faz parte do Clube, vale a pena conferir. As redes sociais da Aleph trazem todas as informações sobre como participar, e se não houver um clube na sua cidade, há também a possibilidade de criar um clube parceiro.

Nos vemos lá. E, enquanto isso, vai ler O Homem do Castelo Alto. Você não vai se arrepender.

O próximo encontro do Clube de Leitura da Aleph acontece em 10 de novembro de 2026, às 19h, na Rua Bento Freitas, 306, 3º andar, São Paulo. O livro da vez: O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick.

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