Um homem cansado abre a gaveta da estação e descobre que o chá acabou. Mesmo assim, ele não desiste. Primeiro, vai até o lixo e recupera um sachê já usado. Depois, prepara dois copos: um para ele e outro para o colega de trabalho. É assim que começa The Commuter, episódio de Electric Dreams, a série antológica de 2017 baseada nos contos de Philip K. Dick.
À primeira vista, parece um detalhe sem importância. No entanto, naquele chá ralo, tirado do lixo e oferecido a outra pessoa, está resumido tudo o que o episódio quer dizer sobre a vida que levamos e sobre a vida que gostaríamos de ter.
The Commuter, de Electric Dreams: um bilheteiro e uma cidade que não existe
Ed Jacobson, vivido por Timothy Spall, vende passagens numa estação de trem há anos. Além disso, tem certa idade, um casamento desgastado e um filho, Sam, que sofre de problemas psiquiátricos. Em casa, ele ouve vizinhos reclamando que o rapaz agrediu uma jovem. Então tenta entender o que aconteceu, mas encontra apenas um filho doente e uma família exausta. Por isso, Ed não reage. Deixa a vida seguir seu curso, como quem já desistiu de esperar outra coisa.
Até que, certo dia, uma mulher aparece no guichê pedindo uma passagem para Macon Heights. Ed, porém, sabe que essa cidade não existe. Quando tenta explicar, ela some. No dia seguinte, no entanto, ela volta. Dessa vez, ele a leva até o colega, para ter uma testemunha, e ela desaparece de novo. Como a mulher tinha dito que a viagem levava 28 minutos, Ed embarca, movido pela curiosidade, e cronometra o trajeto.
Perto do ponto marcado, ele vê passageiros saltando do trem em movimento. Então faz o mesmo, segue o fluxo e chega a uma cidade acolhedora. Em seguida, entra num café, toma um chá de verdade, come um pedaço de bolo e sente, pela primeira vez em muito tempo, que a vida poderia ser diferente.
Dois chás, duas vidas
Ao longo do episódio, The Commuter, de Electric Dreams, constrói um espelho entre dois momentos. No primeiro chá, Ed é quem dá. Afinal, o sachê é reaproveitado e o sabor é fraco, mas mesmo na escassez ele divide o pouco que tem. Além disso, espera o colega beber, como quem aguarda um sinal de que o gesto foi percebido.
No fundo, o que Ed quer é ser notado. Ou seja, ele é o tipo de pessoa cujo esforço vira paisagem: segura o trabalho, a casa e o filho, e ninguém repara porque nada desaba. Assim, aquele copo oferecido é um pedido mudo de reconhecimento.
No segundo chá, em Macon Heights, os papéis se invertem. Agora, Ed é quem recebe. O chá é bom, o bolo é bom e, além disso, a atendente cuida dele sem exigir nada em troca. É o conforto que ele nunca teve. Contudo, é também um cuidado sem história, que não o liga a ninguém. Por isso, a cidade perfeita o seduz justamente onde ele é mais frágil: ali, ele é visto sem precisar provar nada.
Três respostas à mesma tentação em The Commuter, de Electric Dreams
Macon Heights, porém, não tenta apenas Ed. Na verdade, o episódio apresenta três maneiras de responder ao mesmo convite.
- Ed tem a passagem nas mãos. A cidade está ao seu alcance, e o episódio inteiro gira em torno do que ele fará com ela.
- A mulher misteriosa já fez sua escolha. Diante de algo que não conseguiu carregar, buscou refúgio.
- A jornalista sabe que a cidade existe e quer ir, mas não consegue chegar lá.
Ainda assim, o episódio não condena a mulher. Afinal, há pesos que algumas pessoas não conseguem sustentar, e o escapismo surge como sobrevivência, não como fraqueza.
A jornalista, por outro lado, é um caso diferente. Ela busca a perfeição, uma vida sem falhas que só existe como utopia. Por isso, é quem mais sofre: persegue algo que, por definição, nunca vai alcançar.
Macon Heights cabe na tela do celular
Além disso, a jornalista não está só na ficção. Na verdade, ela se parece com muita gente que rola o feed todos os dias. Isso porque as redes sociais vendem a sua própria Macon Heights: sorrisos constantes, viagens, dinheiro, corpos perfeitos e famílias sem conflito. Em outras palavras, uma cidade inteira de felicidade editada.
O problema é que essa vida também não existe. Assim, quem a persegue vive como a jornalista: sabe que o paraíso está logo ali, a 28 minutos de distância, mas nunca consegue desembarcar. Enquanto isso, a comparação constante faz a vida real, com seus chás ralos e esforços invisíveis, parecer pequena demais. Portanto, é aí que o sofrimento começa. Talvez por isso a ficção científica lida devagar, como faz o Clube de Leitura da Aleph, seja hoje uma forma de resistência.
O preço de mudar de vida em The Commuter, de Electric Dreams
Macon Heights cobra um preço, e ele é alto. No entanto, não vou contar qual é nem o que Ed decide, porque essa descoberta é o coração do episódio. Basta dizer, então, que a cidade perfeita não é de graça.
Por isso, a pergunta que fica para quem assiste é incômoda: se você tivesse a chance de mudar de vida, teria coragem de pagar o valor dessa escolha? Afinal, chega uma idade em que olhamos para trás e perguntamos o que fizemos, quais experiências tivemos e que sonhos deixamos pelo caminho. De fato, toda escolha carrega uma renúncia. Escolhemos uma coisa e perdemos outra, mas muitas vezes só saberemos no fim se valeu a pena.
Além disso, o episódio não entrega respostas fáceis. Em vez disso, sugere que o valor de uma escolha também está no que aceitamos carregar, e que viver por escolha é muito diferente de viver por inércia.
A vida perfeita não existe
No fim das contas, The Commuter, de Electric Dreams, carrega a desconfiança típica de Philip K. Dick em relação às realidades perfeitas demais, a mesma que atravessa o universo de Blade Runner. Aldous Huxley, aliás, já tinha feito esse alerta em Admirável Mundo Novo: o paraíso artificial sempre cobra a conta. Ou seja, quando a vida ideal aparece, ela costuma cobrar justamente aquilo que nos torna quem somos.
A lição, portanto, é simples e dura. A vida perfeita não existe, nem em Macon Heights, nem no feed. Pelo contrário, vamos encontrar mais obstáculos do que caminhos livres, e estar preparado para isso não é pessimismo, mas maturidade. Talvez, então, o verdadeiro valor esteja naquele primeiro chá: fraco, improvisado, tirado do lixo, mas oferecido a alguém.
E você? Pegaria o trem para Macon Heights? Conte nos comentários.
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