Primeiramente, uma confissão: assisti a Viagem à Lua no YouTube numa tarde qualquer. São apenas 13 minutos, mas eles carregam o peso de um começo. Afinal, muitos historiadores consideram este filme de 1902, dirigido pelo francês Georges Méliès, a primeira obra de ficção científica do cinema.
Por isso, ver Viagem à Lua (1902) hoje é como abrir uma cápsula do tempo. Não há som nem diálogos, e os efeitos lembram um teatro de bonecos. Mesmo assim, tudo o que o gênero faria depois já está ali: a ciência como aventura, o espaço como fronteira e o ser humano diante do desconhecido.
Sinopse: do congresso de magos ao canhão gigante
O filme começa com um congresso de astrônomos. Eles vestem túnicas longas e chapéus pontudos, mais parecidos com magos do que com cientistas. Então o líder do grupo propõe uma viagem à Lua, e a ideia provoca uma discussão acalorada. Alguns colegas protestam, papéis voam e a reunião quase vira confusão. No fim, porém, o congresso aprova a expedição.
Em seguida, acompanhamos a construção da cápsula em forma de bala. Ao mesmo tempo, operários fundem o canhão gigante que vai lançá-la ao espaço. Logo depois, o embarque vira festa: há bandeiras, multidão e uma fila de moças vestidas de marinheiras que empurram a cápsula para dentro do cano.
Finalmente o canhão dispara, e a cápsula acerta em cheio o olho da Lua, que faz careta de dor. Na superfície, os astrônomos exploram o terreno até que as intempéries os surpreendem. De repente, as estrelas ganham rostos, a neve cai e os viajantes buscam abrigo numa cratera cheia de cogumelos gigantes.
Lá dentro, encontram os selenitas, os habitantes da Lua. Os nativos capturam os viajantes e os levam até o rei. Contudo, os astrônomos reagem a golpes de guarda-chuva, e cada selenita atingido se desfaz numa nuvem de fumaça. Durante a fuga, o grupo volta à cápsula, que despenca da Lua até o mar, com um selenita agarrado ao casco. Por fim, de volta à Terra, a multidão recebe os heróis com desfile, festa e medalhas.
Georges Méliès e o nascimento da ficção científica no cinema
Antes de virar cineasta, Méliès trabalhava como ilusionista de palco em Paris. Por isso, ele enxergou na câmera uma nova cartola de mágico. Com cortes invisíveis, sobreposições e cenários pintados, ele faz pessoas sumirem em fumaça e dá um rosto à Lua. Além disso, o próprio Méliès interpreta o líder dos astrônomos.
A história bebe, sobretudo, de duas fontes literárias. A primeira é Da Terra à Lua (1865), de Júlio Verne, de onde vem o canhão gigante. A segunda é Os Primeiros Homens na Lua (1901), de H. G. Wells, que inspira os selenitas e o reino subterrâneo. No entanto, Méliès troca o rigor científico pelo espetáculo e pela sátira.
Desde então, a cena da cápsula cravada no olho da Lua virou uma das imagens mais famosas do cinema. Clipes, desenhos e até A Invenção de Hugo Cabret (2011), de Martin Scorsese, prestam homenagem a ela. Além disso, pesquisadores encontraram nos anos 1990 uma cópia colorida à mão, restauraram o material e o exibiram no Festival de Cannes em 2011.
Infelizmente, Méliès lucrou pouco com o sucesso nos Estados Unidos. Segundo o Correio Braziliense, Thomas Edison fez cópias ilegais do filme e as distribuiu por lá sem pagar nada ao diretor.
Análise de Viagem à Lua (1902): o desconhecido e a sede de glória
No fundo, Viagem à Lua fala de duas fomes humanas. Em primeiro lugar, a vontade de descobrir o que ninguém viu. Em segundo lugar, o desejo de receber aplausos por chegar lá primeiro.
Basta reparar na estrutura do filme. Primeiro vem a discussão, depois a construção, em seguida a aventura e, por fim, a cerimônia de medalhas. Ou seja, a viagem só se completa quando há aplauso. Portanto, explorar não basta; é preciso voltar, contar a história e receber a coroa.
Trata-se de uma intuição surpreendente para 1902. Afinal, sessenta e sete anos depois, a corrida espacial confirmaria a profecia de Méliès. A chegada à Lua em 1969 foi ciência, mas também desfile, bandeira e disputa por prestígio entre nações.
Da mesma forma, os astrônomos vestidos de magos dizem muito. Méliès sugere que ciência e fantasia nascem do mesmo impulso: imaginar o impossível antes de alcançá-lo. Assim, a túnica de mago não é deboche gratuito. Na verdade, ela reconhece que todo cientista começa como sonhador.
O lado sombrio: guarda-chuvas, nativos e o olhar colonial
Por outro lado, há uma sombra nessa festa. Os astrônomos chegam a um mundo habitado, invadem o território e agridem os nativos com guarda-chuvas. Em vez de compreender os selenitas, eles os dissolvem em fumaça.
Além disso, o retorno piora a cena. Os astrônomos trazem um selenita à Terra e o exibem ao público como troféu. Na época, a Europa vivia o auge do imperialismo, e esse gesto lembra os “zoológicos humanos” das exposições de então.
Por isso, Viagem à Lua (1902) funciona também como um espelho incômodo. Talvez Méliès quisesse apenas fazer rir. Mesmo assim, o filme revela como o explorador costuma enxergar o outro: como obstáculo, curiosidade ou prêmio. Não por acaso, a ficção científica passaria o século seguinte revisitando essa pergunta, de A Guerra dos Mundos a Avatar.
Onde assistir Viagem à Lua (1902) e veredito
Hoje, Viagem à Lua está em domínio público, e qualquer pessoa pode assistir de graça no YouTube. Ainda assim, vale procurar a versão colorida restaurada, que dá outra vida aos cenários. A duração varia entre 13 e 18 minutos, conforme a velocidade de projeção da cópia. Para conhecer elenco e bastidores, veja a página do filme na Wikipédia.
Veredito: obrigatório para quem gosta de ficção científica. Embora a técnica tenha envelhecido, Viagem à Lua (1902) envelheceu muito bem como ideia. Em apenas 13 minutos, Méliès inventou o filme espacial e, sem querer, registrou o que nos move: a curiosidade, a vaidade e a eterna vontade de voltar para casa como heróis.
E você, já assistiu? Conte nos comentários o que achou do primeiro voo do cinema rumo às estrelas. Enquanto isso, explore outras resenhas no canal de Ficção Científica do Setor 42.
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